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As três dimensões do desfralde

As três dimensões do desfralde

O controle de esfíncteres não se induz, nem se impõe, a criança o alcança quando estiver na hora certa. Todos deixam as fraldas uma ou outra hora, não precisa pressa.

O desfralde marca a mudança de bebê a criança. É um PROCESSO no qual a criança adquire o adequado controle dos esfíncteres que lhe possibilita parar de usar fralda. O controle esfincteriano é uma das maiores competências adquiridas na primeira infância, possibilitando ao indivíduo maior autonomia, convívio social, autoestima e conhecimento do próprio corpo.

Para conseguir deixar as fraldas completamente a criança precisa adquirir competências em três dimensões:

1- Neurofisiológica: O amadurecimento das conexões neurológicas que controlaram a musculatura do assoalho pélvico e o esfíncter, o que lhe permitirá segurar e controlar a micção; o amadurecimento fisiológico dos rins que lhe permitira uma maior concentração da urina, e o amadurecimento do sistema interoceptivo, que lhe permitirá reconhecer as sensações dentro de seu próprio corpo (e saber assim a hora certa de ir ao banheiro) . Esse processo não pode ser forçado, induzido ou acelerado, ele faz parte do desenvolvimento. A forma mais saudável é deixar acontecer de maneira natural.

2- Comportamental: Ir ao banheiro é um requisito social, é um comportamento composto por varias pequenas ações ativadas em uma ordem determinada. …[Reconhecer a hora certa, abrir a porta, acender a luz, fechar a porta, levantar a tampa da privada, baixar as calças, baixar a roupa interior, sentar fazer xixi ou evacuar, limpar adequadamente, levantar a roupa interior, levantar as calças, dar descarga, abaixar a tampa da privada, lavar as mãos, secar as mãos, abrir a porta, e sair] ….. Uma lista enorme para ser memorizada por uma criança pequena em apenas umas semanas, ainda hoje vários adultos esquecem de alguns desse passos simples. A vantagem é que sendo um comportamento social ele começa ser aprendido desde cedo, com a observação, a imitação. Assim, quando a criança começa manifestar sinais de amadurecimento neurofisiológico provavelmente vai começar se interessar ainda mais pelo comportamento de ir ao banheiro dos outros. Nessa fase reforçar com brincadeiras, livrinhos e deixando experimentar por ele próprio (mesmo que ainda não consiga controlar a micção) são um bom estímulo.

3- Emocional: Durante o desfralde a criança está reconhecendo o próprio corpo, mudando  a imagem de si e inevitavelmente construindo a sua AUTOESTIMA. Mesmo com o amadurecimento neurofisiológico e comportamental pronto, se a criança não se sente “grande suficiente” para deixar as fraldas e fazer a transição de bebê para criança, o desfralde simplesmente não acontece, ele avisa que vai fazer e faz, pode até reter a evacuação ou micção se a fralda é retirada. Por isso é importante trabalhar junto ao bebê sua autoimagem, alimentar sua autoestima, sua autoconfiança, evitando a exposição desmedida de sua intimidade. Escutando e acompanhando os pequenos progressos. Socialmente se espera que o desfralde aconteça até os 3 anos. A exposição da intimidade da criança só atrapalha o processo; esquecemos que o desfralde é um processo que pertence à intimidade da família e por isso só as pessoas do convívio da criança devem intervir no desfralde.

Não existe uma idade biologicamente determinada. Mas podemos observar que o desfralde é mais rápido, menos tortuoso e com menos incidentes quando a criança começa a retirada das fraldas após ter adquirido amadurecimento neurofisiológico pleno, algo que pode acontecer ao redor dos 24 – 28 meses de idade. Pelo bem da saúde e autoestima da criança é melhor adiar do que antecipar. Um desfralde precoce, que não acompanha o amadurecimento neurofisiológico, comportamental ou emocional da criança, acaba sendo muito frustrante para todos os envolvidos e pode gerar uma série de problemas físicos e emocionais, que podem repercutir mais para frente na fase escolar e adulta.

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